Arquivo de Outubro, 2008

Despedidas

Outubro 21, 2008

 

Depois de dois meses em Castrocielo chegou hora de partir. Quem diria que aquela cidadezinha de só 3500 habitantes e 3 policiais mexeria comigo dessa forma. Não imaginei que faria amigos como aqueles, pessoas maravilhosas que acolheram um “rapaz latino-americano e sem dinheiro no bolso” sem se importar com os erros de concordância verbal.

Voltei para o norte da Itália pra tentar a vida na cidade grande, me sinto um retirante nordestino em São Paulo. Está começando a segunda fase do jogo e mal posso esperar pra saber qual será o “chefe dessa tela”.

 

Agora sou um cidadão ítalo-brasileiro e automaticamente cidadão da comunidade européia. Ainda faltam alguns detalhes burocráticos pra eu ficar com todos os documentos 100% em ordem, mas o pior já passou.

 

As coisas não estão muito fáceis, mas como diz o sábio chinês: “keep walking, johnny walking” (sim, foi um trocadilho).

Liçoes

Outubro 14, 2008

 

Existem coisas que você aprende mas por algum motivo não percebe que aprendeu. Talvez nunca perceba, mas mesmo assim aquilo sempre estará com você. Ou talvez você se lembre depois de muitos anos.

Era um sábado a tarde e eu estava saindo de casa de patins. Eu devia ter uns onze anos e um dia ensolarado como aquele era ideal pra ficar na rua até escurecer treinando novas manobras com os amigos.

Quando abri o portão da rua percebi que tinha uma mulher abrindo os sacos de lixo que estavam na porta da minha casa. Acontecia sempre isso, os catadores de latinhas e papelão abriam os sacos, pegavam o que queriam e depois deixavam tudo espalhado na calçada. Minha mãe ficava muito irritada com isso, então eu me aproximei e disse educadamente:

– Com licença – ela parou o que estava fazendo e me olhou surpresa – Depois que você terminar pode por favor fechar os sacos de novo?

Não lembro exatamente o que ela respondeu, mas foi algo ignorante e desnecessário me xingando. Eu repliquei mantendo a diplomacia:

– Desculpe, mas eu só pedi para que você não deixasse o lixo espalhado. Não precisa ser mal educada.

A senhora voltou a me xingar, dizendo inúmeros palavrões aos berros. Meu pai que estava na sala, ouviu a confusão e saiu para ver o que estava acontecendo. Ele chegou, viu a mulher lá e me perguntou o que tinha acontecido. Eu contei rapidamente e a mulher interferiu ainda aos berros:

– É mentira, ele começou a me ofender com um monte de palavrões.

– Senhora – respondeu meu pai – eu conheço meu filho e conheço a eduação dele. Eu sei que ele não faria isso.

A mulher xingou mais um pouco e foi embora. Meu pai entrou e eu fui andar de patins. A história acabou ali e dez minutos depois ninguém mais lembrava do que tinha acontecido.

 

Parecia ter sido um acontecimento absolutamente sem importância e de certa forma rotineiro. Era evidente que meu pai confiaria na minha palavra e não no que dizia uma catadora de lixo louca. Mas de algum modo naquele dia, as palavras do meu pai ficaram registradas em meu caráter.

Eu percebi quanto é importante ter a confiança das pessoas. Eu vi quão belo é você dizer algo abstrato a  uma pessoa que sabe como você realmente é, e ela dizer “ok, eu acredito em você” sem precisar provar nada ou ficar falando “juro por Deus”.

“Eu conheço meu filho e ele não faria isso”. Graças a essa frase e muitas outras que eu fui capaz de conquistar a confiança absoluta das pessoas ao meu redor agora, em questão de um mês e meio.

Corrida nas montanhas

Outubro 7, 2008

 

Antonio é um dos amigos que fiz por aqui, é de uma cidade vizinha chamada Roccasecca. É formado em pedagogia e seu sonho é ir morar em algum país da américa latina.

Desde que voltou a fazer academia queria correr para perder uns quilinhos mas não tinha companhia. Sábado, já no final da tarde, passou aqui em casa para corrermos juntos.

Fomos de carro até um ponto, estacionamos e começamos a correr. Foram vinte e cinco minutos até sua casa, onde paramos por uns cinco minutos, tomamos uma água e voltamos a correr em direção ao carro. Aqui o terreno é todo cheio de subidas e descidas e poucos minutos já são sufucientes para deixar cansado. Mais vinte e cinco minutos e chegamos ao carro novamente. Fizemos um pouco de alongamento e na hora de entrar no carro ele vira e me diz:

– Me dá a chave do carro.

– Não está comigo.

– Como não? Eu entreguei pra você.

– Mas eu te devolvi para você abrir a porta da sua casa!

– Mas quando saímos você não pegou?

– Por que eu pegaria? A chave estava com você!

– Eu deixei em cima da mesa…

Estávamos estacionado em uma estrada deserta no alto da montanha, exaustos e sem a chave do carro. Pra piorar já estava escuro e nenhum de nós havia pego o celular pra que não incomodasse no bolso.

– E agora, o que fazemos? – perguntou Antonio com esperança de que eu tivesse alguma idéia.

– Vamos voltar à sua casa a pé mesmo.

– Mas já está escuro, é perigoso por causa dos carros. Essas estradas não tem iluminação e são muito estreitas.

Enquanto pensavamos, parou um carro a uns vinte metros de nós. Resolvemos ir até ele pedir ajuda.

– Antonio, fala você porque se ouvirem meu sotaque estrangeiro vão achar que somos assaltantes…

– Mas o que a gente fala?

– A verdade…

Falamos com o rapaz que estava no carro que, muito gentilmente, se dispôs a nos levar até a casa de Antonio. Ele tinha parado ali para pegar sua namorada, e quando a garota entrou no carro descobrimos que coincidentemente ela conhecia Rita e Rocco.

– Ah! Então você é o rapaz brasileiro que está morando na casa da tia do Simone?

– Sim, eu mesmo.

Conversamos um pouco e logo chegamos. Fomos recebidos pelo pai de Antonio enfurecido:

         – Mas o que aconteceu? Eu chego em casa e encontro seu celular e a chave do carro em cima da mesa, mas você e nem o carro não estavam aqui!?

 

Depois de esclarecer tudo, ele nos levou novamente até o carro e finalmente consegui voltar para casa.

Criatividade Italiana

Outubro 2, 2008

 

Os italianos são completamente sem graça, comicamente falando. Seus programas de humor são todos estilo “A praça é nossa” e “Zorra Total” e os filmes quase todos “pastelões”. Há algum tempo comprei um livrinho de piadas pra treinar meu italiano e também para conhecer algumas anedotas locais. Meu Deus, que tragédia. Ao lê-lo, eu ria, mas de desespero. Como conseguiram colocar tanta piada idiota junta?!

 

Agora, depois de mais um tempo de convivência entre eles, percebi que a culpa é da falta de criatividade. Mas é tamanha a falta de criatividade que aqui os nomes dos canais de TV são os seguintes: o canal 1 chama Rai Um, o canal 2 chama Rai Dois, o canal 3 chama Rai Tres, o canal 4 chama MediaSet 4, o canal 5 chama MediaSet 5, o canal 6 chama Italia Uno (ao menos um diferente) e o canal 7 chama Gold 7. O telejornal da Rai Um se chama TG1, abreviação de Tele Giornale 1, e assim sucessivamente.

O programa de humor “Dom Luca C’è” tem como protagonista um personagem chamado Padre Dom Luca, que é interpretado por um ator chamado Luca Laurente.

Um outro programa de humor chamado “Love Bugs” contava as confusões de um casal de noivos, Fabio e Michele. E adivinhe como se chamavam os atores? Fabio De Luigi e Michelle Hunziker! Na segunda temporada a atriz Michelle Hunziker foi substituida por Elisabetta Canalis, que na série se chamava Elisabetta!

 

Não vou entrar no mérito do idioma pois não tenho um conhecimento suficiente, mas pelo que vejo até para falar eles não tem criatividade. Uma mesma palavra serve para dezenas de situações diferentes, não é como o português do Brasil, onde inventamos dezenas de palavras para dizer a mesma coisa.

Já pararam pra contar quantas formas diferentes existem de chamar um cara de gay? Em matéria de criatividade somos mais “primeiro mundo” que qualquer um.