Domingo a noite eu estava com a maior preguiça de trabalhar e o restaurante estava às moscas. Voce sabe, quanto menos voce faz, menos voce quer fazer. Eu estava bocejando quando a maquininha dos tickets começou a imprimir um pedido. Pensei num palavao e fui ver o que era. Era um doce, ‘Cestino di Frutti’. Comecei a faze-lo. Essa sobremesa é um biscoito em formato de cesto que enchemos com chantilly, blueberryes e morangos em predacinhos. Para decorar colocamos uma folhinha de hortela e um pouco daquele acucar de confeiteiro por cima. Coloquei o doce pronto em cima do balcao e esperei que uma das garotas viessem pega-lo e servi-lo ao cliente. Milena veio busca-lo. Ela olhou para o doce e fez uma cara de desaprovaçao. Ela é polaca e nao fala nada de ingles. Acho que as unicas palavras em ingles que eu ouvi ela dizer foram ‘yes’, ‘no’ e ‘fuck off’. Pelo menos ela é muito boa de mimica. Eu olhei para o doce e nao vi nada de errado. Ela apontou para um pedaço de morango, entao entendi o que ela queria dizer. Nos somos treinados para colocar apenas um morango. Como eu acho sacanagem pagar cinco pounds em um biscoitinho com um morango, blueberryes e chantilly, eu coloco sempre dois morango. Dessa vez, como eu estava com preguiça, coloquei um so. A garota olhava para minha cara e olhava para o prato. Diante da sua insistencia peguei mais um morango, piquei e coloquei dentro do ‘cestinho’. Ela sorriu, pegou o prato e foi embora. O cliente que comeu o doce nunca sabera que ela fez isso por ele. Ela nao ganhou nada por ter feito isso, e provavelmente ela sabia que nao ganharia nada para fazer isso.
Parece uma coisa estupida, mas nao.
Ontem, segunda feira, tambem era um dia morto no trabalho. Nao tinha nada pra fazer entao eu estava conversando com uma das garçonetes, uma slovaka de vinte e seis anos que fala muito bem ingles. A conversa foi interrompida quando ouvimos um rapaz entrar pela porta da frente. Era um rapaz negro, bem vestido e de boa aparencia. Estava sozinho. Poderia ser um cliente. Ela foi recebe-lo. Os dois trocaram algumas palavras e ele foi embora. Quando ela voltou eu perguntei “quem era?”. “Estava procurando emprego. Eu disse que nao temos vagas no momento. Eu nao gosto de negros” ela me respondeu. Aquele rapaz nunca sabera que na verdade nos estamos SIM precisando de graçons no momento. Ele nunca sabera tambem que o simples fato de sua pele ser escura, ele perdeu um possivel trabalho.
Pra ser sincero, tem coisas que é melhor nem saber.