A minha irma esta namorando e eu ainda nao conheço o cara. Exatamente um ano depois que eu parti do Brasil eu fico sabendo que eles vao se casar.
Talvez isso queira dizer alguma coisa.
A minha irma esta namorando e eu ainda nao conheço o cara. Exatamente um ano depois que eu parti do Brasil eu fico sabendo que eles vao se casar.
Talvez isso queira dizer alguma coisa.
Existem locutores esportivos, locutores de radio, locutores de publicidades, locutores de festas e eventos e mais alguns outros. E existe tambem os que eu chamo de locutores da propria vida.
Os locutores descrevem e narram aquilo que esta acontecendo naquele momento. Assim como seus colegas de profissao, os locutores da propria vida vao falando tudo que estao fazendo, aquilo que terao que fazer e o porque tem que fazer. Vou explicar melhor.
Minha colega de quarto fala pelos cotovelos. Tira assuntos do nada e sempre quer conversar. Quando o assunto acaba, entra em açao a narraçao das açoes presentes e futuras. Hoje por exemplo, eu estava tentando ler meus emails e ela nao parava de falar. Tentou a todo custo puxar assunto comigo, e eu ignorando. Quando percebeu que nao teria exito, começo:
“Deixe-me pensar… Agora eu preciso colocar minha roupra lavar e depois eu vou estudar um pouco. Acho que vou vestir essa calça aqui… ou sera que essa fica melhor? Ah, eu preciso separar os documentos pra levar no banco amanha, quase eu me esqueço! Mas porque o meu celular esta desligado? Ah, acabou a bateria, entao eu vou colocar pra carregar. Cade o carregador? Eu tinha deixado nessa gaveta… ah, esta aqui em baixo da cama. Nossa, como eu estou desorganizada ultimamente, eu nao era assim…”
Isso tudo é dito em sequencia e sem pausa, imendando uma coisa na outra. Parece uma partida de futebol… É insuportavel! Parece que ela nao consegue pensar em silencio, tem que falar sempre!
A sorte dela é que eu tenho paciencia. O azar dela é que tudo tem um limite…
Ta bom, eu nao queria falar sobre isso , senao iriam falar que eu atraio gente assim, ou entao que eu estou inventando. Enfim, agora eu nao posso nao escrever sobre isso. Depois do Jhonny, da Rita e do Antonio lhes apresento Domingos.
Este individuo veio morar aqui em casa ha umas tres semanas e divide o quarto com o ucraniano. Antes de vir pra Inglaterra ele morou nove anos na Espanha e trabalhava como colocador de azulejos. Tem uns trinta e cinco anos e é do Parana.
Seu traço de personalidade mais evidente é a obsessao por limpeza. No primeiro dia que ele chegou na casa, passou umas 6 horas direto limpando os dois banheiros. Dia sim dia nao ele sai aspirando os carpetes das areas em comum e se voce deixar louça suja na pia ele tira de la e empilha tudo num canto.
Antes dele arrumar emprego, nao parava em casa. Acordava às oito da manha e saia pra rua. As nove voltava e às dez saia de novo. Voltava depois do almoço e em seguida saia de novo. Uma vez ele estava saindo e me disse:
- Eu estou indo na igreja evangelica onde fazem um culto so pra brasileiros, voce quer vir também?
- Nao obrigado, eu nao sou evangelico.
- Eu tambem nao, vou so pra conhecer gente nova.
- Como assim?! Eu quando quero conhecer gente vou num bar ou numa boate.
- Eu sei, eu tentei ir uma vez numa boate. Mas a musica era muito alta e eu nao ouvia o que as pessoas falavam. Entao eu vou na igreja.
A partir dai eu percebi que ele nao era cem por cento normal. Até que hoje ele fez uma coisa que ninguem acreditava.
La pelas nove da noite Natalia, a menina que mora no quarto debaixo do meu, veio ate mim e disse:
- Voce viu o cabelo do Domingos?
- Nao. Porque?
- Ele sozinho pintou de preto e esta escorrendo tudo no pescoço e na testa dele! Aquilo nao vai sair!
Ele ja tem o cabelo preto e estava tingindo so pra esconder seus poucos cabelos brancos. Ele estava na cozinha, entao eu desci pra averiguar. Ele estava cozinhando com a cabeça toda lambuzada e a tintura escorrendo pra todo lado. Segurei a risada e subi pro meu quarto.
Umas duas horas depois, ele foi tomar banho e tirar a tinta. Quando ele saiu do banheiro, obviamente, estava com a cabeça toda preta. A Natalia nao se aguantou e começou a rir:
- Olha so o que voce fez! Isso nao vai sair tao facil!
- Acho que ate domingo sai (isso foi numa quinta-feira).
- Mas e como voce vai trabalhar?
- Nao tem problema, eu tenho um bonezinho do Pato Donalds.
- Mas voce vai trabalhar com um boné do Pato Donalds?
- Vou ué, qual o problema?
Isso é so pra voces terem uma ideia de como é meu novo co-inquilino Domingos. Sunday, pro mais intimos.
Estou morando num bairro chamado Stamford Hill, no limite das zonas 2 e 3. Estou bem localizado pois é um pouco periferico, entao se paga menos aluguel mas ao mesmo tempo é de facil acesso ao centro.
Porém, a caracteristica principal daqui sao os judeus. Toda a regiao é tomada por eles. E sao aqueles que so andam de preto, sempre kipá e um chapéu, meias brancas e o cabelo abaixo da linha das orelhas.
Eles dominam as ruas, voce nao precisa ficar mais que 30 segundos pra ver uns dois ou tres passando de um lado para o outro. E eles nao andam, correm! Minha Nossa Senhora, nao entendo porque eles andam tao rapido. Parece que estao sempre fugindo de alguém.
Eles frequentam sempre so comercios de outros judeus, tem escolas judias e moram todos uns do lado do outro. Vivem num mundo so deles e se isolam de todas as outras pessoas. Eles nao falam com voce, e nem mesmo olham pra voce.
Nos primeiros dias que eu estava morando aqui, estava voltando pra casa e desci um ponto depois do que eu deveria e me perdi. Tentei perdir informaçao pra uns tres que falavam e eles simplesmente me ignoraram. Acho que começo a entender como pensava Hitler.
Ja faz um tempo que eu nao apareço por aqui e por isso acumulei algumas novidades. A primeira e mais significativa delas é que eu arrumei um emprego!
Estou trabalhando ha duas semanas num restaurante italiano (!) como ajudante de cozinha (!!) onde nao tem italianos (!!!). Na verdade uma das gerentes é italiana, mas na cozinha tem so polacos e argelianos. As garçonetes quase todas sao polacas e tem uma argentina.
É um shit job que os ingleses nao querem fazer, mas pelo menos eu continuo comendo bem e da pra pagar o aluguel. Vou continuar procurando outra coisa melhor enquanto tento estudar e melhorar meu ingles.
Até agora, quase fui atropelado: 7 vezes
Vendo nos filmes ja parece um pouco estranho, ao vivo é mais bizarro ainda. Quando voce esta atravessando parece que os carros vem de todos os lados. E que è pior, que eles vem em cima de voce! Em todas as ruas e avenidas mais movimentadas tem escrito no chao “look right” ou “look left” e uma setinha indicando pra onde olhar pra ver se nao vem carro. O problema é que é uma coisa tao automatica olhar pra esquerda, que voce nem se lembra de mao é invertida. Ai voces falam “ah, é porque voce é confuso!”, mas com o Antonio, que é italiano, é a mesma coisa. Eu sei que é questao de costume, mas ate que eu aprenda estou correndo risco de vida! Bom, vamos torcer pra que meu plano de saudade cubra acidentes no exterior…
* Ate agora, quase fui atropelado: 5 vezes!
PS. Esse aqui é um contator que estara presente no final de todos os meu posts referentes a Londres!
Ja faz bastante tempo que eu nao posto nada aqui pois ultimamente nao tenho tido muito tempo. O tempo que encontro pra usar o computador tenho tantas coisas pra fazer que acaba dando ate preguiça de parar com calma e escrever um post descente.
Agora chegou um ponto que aconteceram tantas coisas novas que eu me vi obrigado a dar sinal de vida.
No começo do mes pedi demissao dos meus dois empregos em Milao e trabalhei ate dia 16. Tornei a girar pela Italia e revi alguns amigos italianos. Passei um dia em Mantova, um dia em Roma e uns tres dias em Castrocielo.
Quarta-feira passada me mudei pra Londres. Passei uns tres dias como turista e agora essa segunda comecei a procurar emprego.
Em um resumo bem resumido é isso, tem umas fotos no meu fotolog e mais pra frente eu vou dando mais detalhes. Estou com internet em casa, entao acho que ate que eu comece a trabalhar vou ter bastante tempo pra escrever.
Desejem-me sorte!
Ontem foi uma noite movimentada no trabalho, que estava bem cheio e não paramos um minuto. Normalmente fechamos às duas horas, mas em noite como essa acabamos ficando até mais tarde. Lá pelas duas e meia, como tinham poucas mesas comecei levantar os banquinhos para limpar.
O aparelho de som toca músicas aleatoriamente e está sempre ligado pra manter um fundo musical. Como o local estava quase vazio, a música ficava em evidência.
No momento que comecei a varrer, começa a tocar uma música. Era uma música perfeita, era uma trilha sonora de um filme. E eu estava vivendo a cena do rapaz que encontra um emprego num pub em Milão e está varrendo o chão no fim de um dia duro. Eu me sentia bem naquele momento, desfrutava da sensação cinematográfica e prestava atenção na canção sem parar o que estava fazendo.
De repente me veio um pensamento: “só falta alguém vir e mudar a música, só pra estragar a cena”. Poucos segundos depois chega a gerente e diz pro barman “vamos desligar o som que já está tarde”.
Na hora eu fiquei puto e pensei “essas coisas só acontecem comigo”. Mas agora, lembrando do que aconteceu, percebi que isso foi só pra completar a cena. Afinal, esse tipo de coisa também só acontece em filmes…
Observar comportamentos sempre foi como um hobby para mim. E aos poucos aprendi a usar isso a meu favor. No cafe que eu trabalho tive um prato cheio.
Os donos sao um casal de sardos que migraram pra Milao ha uns trinta anos e tiveram uma vida de trabalho duro. Com muito suor criaram tres filhos homens, sendo que um dele, Enrico, tem problemas mentais. Agora que os filhos ja estao grandes tem que cuidar de uma “nonna” doente. Devido a estes e diversos outros problemas eles sao extremamente amargurados, acidos e ignorantes. Brigam o tempo todo entre eles, com os filhos e comigo. Nao demonstram nunca afeto ou carinho entre eles, so xingamentos e reclamaçoes.
Flavio é o filho mais velho, casado e com dois filhos. O vi somente duas vezes, mas foi o suficinte para perceber que sua vida tambem nao é das mais felizes.
Enrico, como ja citei, tem problemas mentais. Tem 21 anos mas é como se tivesse 10. A familia esta tentando pegar uma pensao por invalidez para ele. Ele terminou o colegial e nao faz nada da vida, so ajuda os pais no Cafe.
E por fim, Andrea. Deve ter seus 23 anos e trabalha numa empresa no periodo da tarde e noite. Na hora do almoço tambem ajuda os pais. Nao consigo entender como ele pode fazer parte daquela familia sendo tao diferente de todos. É unico que tem paciencia com Enrico. Cumpre muito bem o papel de irmao mais velho, é energico (sem ser ignorante) quando ele faz cagada e elogia quando faz as coisas certas. Brinca com ele, entra nas brincadeiras dele e faz e fala coisas so pra deixa-lo feliz. Ver o relacionamento deles me faz sentir bem.
Me faz lembrar do meu irmao.
(ps. Por favor, sem piadinhas do tipo “mas qual de voces é que tem problema mental)
Como vocês já sabem, eu já tinha conseguido a cidadania. Mas tudo que eu tinha era um documento que dizia isso, me faltava ainda o passaporte e a carteira de identidade.
Eu estou morando em Milão mas a minha residência estava registrada em um endereço perto de Roma. Devido ao controle rigoroso e buracrático que faz o governo italiano, isso era um problema pra mim. Fazer esses documentos por aqui significaria perder tempo e gastar uma grana alta. Eu podia ir para Roma para tentar lá, mas por determinados motivos não era certo que eu conseguiria.
Finalmente depois de um certo planejamento, segunda passada eu fui pra lá. Saí de noite pra chegar lá de manhã cedo. Os orgãos públicos aqui na Itália funcionam só até meio-dia, então eu tinha que fazer tudo pela manhã. E eu tinha só um dia, pois deveria partir de volta para Milão para trabalhar na quarta-feira.
Chegando na estação de Roccasecca, Antonio, um amigo que fiz no tempo que eu morava lá, foi me buscar de carro. Fomos até a prefeitura de Castrocielo para fazer o RG, ao correio pagar as taxas e depois à delegacia de Frosinone (que fica a uns 45 quilometros de Castrocielo) para fazer o passaporte. Sozinho eu não teria feito tudo em tempo.
Meu trem saía só às onze horas da noite, portanto tive a tarde livre para rever o pessoal, a Rita e o Rocco e pra rever Castrocielo. Fui recebido com muito carinho por todos e me senti muito bem. Todos me convidaram para passar o natal e o ano novo lá.
Essa foi minha última vitória em todos os sentidos. Concluí de uma vez por todas o processo da cidadania, e vi que eu deixei uma marca em Castrocielo. Fiz amizades verdadeiras e vi que tenho com quem contar.
Que fique claro que quando falo “última”, me refiro a esta saga da cidadania, pois outras estão por vir…